CAPÍTULO 9
A ARTE ZEN DE LAVAR A LOUÇA
Aprendendo a lidar com os mecanimos causadores do estresse.
(Trecho do capítulo)

 
Cada dia repete o anterior
de forma diferente;
irrepetível, toda hora
repete outras horas.
José Nêumanne Pinto.
Tempo, tempo, tempo, tempo,
faço um acordo contigo
Caetano Veloso

ESTRESSE E TEMPO

O estresse constitui um dos problemas mais sérios do mundo de hoje. Basta ligar a televisão para ver que ele é matéria constante de reportagens, e que a maioria das pessoas não nega que vive uma vida cheia de ansiedade e tensão, não fazendo diferença a classe social nem a situação econômica.

Os motivos dessa ansiedade variam. O pobre fica ansioso por não saber se vai arranjar dinheiro para a feira ou se a água vai invadir o barraco na próxima chuva, ou se vai arranjar vaga para deixar as crianças na creche enquanto trabalha. Na classe média, o indivíduo se preocupa com a prestação do carro e do apartamento, com o fantasma do desemprego, com o aumento das mensalidades escolares. Quem é rico acompanha com apreensão as oscilações da bolsa, sofrendo com a concorrência no mundo dos negócios e lutando para manter um padrão de vida adequado à sua fortuna e posição social. Finalmente, todos têm medo da violência, das crises econômicas, das catástrofes naturais e da morte.

Não é à toa que na nossa sociedade seja alto o consumo de tranquilizantes e que seja grande a procura por toda sorte de terapias alternativas para controlar e eliminar o medo, a tensão e a ansiedade.

Não existe condição mais danosa ao organismo do que o estresse. Um grande número de doenças e de condições físicas desagradáveis são por ele causadas, como enfarte, úlcera, gastrite, colite, alergia, asma, enxaqueca... Além disso, quando o indivíduo refere sensações vagas de mal-estar que não sabe definir exatamente muitas vezes encontra-se o estresse na raiz dessas manifestações.

Ora, o estresse sempre vai existir. É impossível viver sem nenhuma ansiedade, sem nenhum problema. O que precisamos é aprender a lidar com essas condições que nos deixam tão estressados e tão ansiosos. Descobrir formas de enfrentar os problemas do cotidiano, transmutando-os para que não nos afetem de maneira prejudicial, constitui uma das maiores mágicas que podemos dominar.

Geralmente, quando se fala em estresse, a impressão que temos é que ele está geralmente associado ao tempo, ou à falta de tempo. Quando imaginamos um indivíduo estressado, geralmente visualizamos alguém com a agenda abarrotada, correndo de um lado para o outro para atender a muitas solicitações, telefones tocando, carros em alta velocidade, todas essas imagens ligadas à forma como administramos o tempo.

No entanto, apesar do estresse estar associado com a falta de habilidade para lidar harmoniosamente com o tempo, existem outras condições que não têm nada a ver com isso e que nem sempre são reconhecidas como geradoras de estresse. É preciso conhecê-las para saber como superá-las.

PERFECCIONISMO 

Quem não conhece aquela dona de casa extremamente exigente com o serviço doméstico, tão exigente que as empregadas não demoram muito tempo na casa dela? Ou aquela mãe que quando os filhos entram em casa com os pés sujos de lama ela fica mais preocupada com as manchas no piso do que com o perigo das crianças se resfriarem por estarem com os pés úmidos? E aquele homem que se irrita facilmente com os erros dos outros – e para ele os outros estão sempre errando! – que critica e julga, que vê apenas os defeitos de tudo e de todos?

São os perfeccionistas, pessoas que têm mania de perfeição, mania de exatidão, mania de limpeza. Querem que o mundo funcione como se fosse um mecanismo perfeito de ordem e precisão, e quando as coisas não ocorrem dessa forma, é motivo para eles de grande irritação.

A impaciência com a lentidão alheia, com a poeira, com o barulho, com a falta de asseio, e até mesmo com os traços mais inocentes e inofensivos do caráter dos outros é uma de suas características. A esposa que inferniza a vida do marido porque este espreme o tubo de pasta de dentes pelo meio, não levanta a tampa do vaso quando usa o sanitário, faz barulho quando toma sopa e assovia enquanto lava o carro está apenas expressando essa sua característica.

A atitude do perfeccionista diante das pessoas é sempre crítica. Frequentemente estão sobrecarregados de trabalho porque não querem delegar tarefas, já que ninguém consegue fazer as coisas de uma forma que os satisfaça. Submetem seus empregados ou subordinados a uma vigilância constante e são incapazes de demonstrar compreensão e paciência com as limitações e deficiências dos outros.

Irritam-se com bobagens, com gestos e com pequenos hábitos das outras pessoas. Não admitem atrasos, mesmo que sejam mínimos e são implacáveis quando se trata de apontar um erro alheio, quando se trata de fazer uma crítica. Esquecem os 95% que dão certo e se concentram apenas nos 5% que dão errado. Não têm senso de humor e têm dificuldade em gozar a vida. É o torcedor que não consegue se alegrar com a vitória porque o time jogou mal, e enquanto todo mundo está comemorando ele insiste em repisar todas as jogadas que não deram certo e em apontar todos os defeitos táticos e técnicos da equipe. O pior de tudo é que ele não compreende como é que todo mundo consegue ficar tão alegre torcendo por um time tão ruim, mesmo quando este time se sagra campeão.

Geralmente, essas pessoas terminam ficando isoladas dos outros. Seu grau de exigência com coisas, situações ou pessoas é tal que nada o satisfaz. É difícil encontrar um restaurante que lhe agrade, as pessoas não são suficientemente inteligentes, ou atraentes, ou interessantes, as lojas não têm artigos que lhe servem. Quem não se lembra do Capitão von Trapp no filme A Noviça Rebelde? Exigente e crítico, esperando que os filhos se comportassem dentro da mais perfeita ordem e disciplina, sacrificando até as manifestações de carinho e a expressão saudável das emoções.

O perfeccionismo é uma atitude extremamente geradora de tensão. Como o mundo não é perfeito e as pessoas não são perfeitas, muitas delas inclusive estando muito longe disso, os perfeccionistas vivem extremamente insatisfeitos e infelizes. Essas pessoas têm uma tensão emocional que se expressa fisicamente por rigidez e dores nos ombros, no peito, nos braços e na mandíbula. São também candidatas fortes à ocorrência de cefaléias e enxaquecas.

O perfeccionismo é uma manifestação de intolerância, da incapacidade de colocar-se no lugar do outro. Nenhum de nós pode se arvorar em juiz do outro porque também temos nossos próprios defeitos. Quando consegui-mos identificar em nós sintomas desta desarmonia o caminho mais curto para superá-la é fazer as pazes conosco, desviando o foco dos outros e jogando mais luz sobre nós mesmos. Sorrir, brincar, começar a exercitar a possibilidade de gostar de coisas que não sejam cem por cento, fazer concessões, deixar rolar, reconhecer a própria ignorância, são atitudes que ajudam muito.

É preciso entender que todos temos os nossos talentos e que todas as coisas têm vários aspectos. Você já reparou que existem flores, como o girassol, que desabrocham violentamente, se expondo em toda a sua glória amarela e luminosa? E que as pequeninas e tímidas violetas se escondem na sombra da folhagem de outras plantas? As pessoas, flores do universo, são do mesmo jeito. É preciso entender a maneira especial que cada uma tem de florir e desabrochar, enchendo o mundo de cores e perfumes variados. Sabedoria é compreender e respeitar a diferença porque é ela que dá beleza ao mundo.
 

AUTORITARISMO

Existem pessoas que têm muito talento para comandar. São os líderes, e graças a eles a maioria de nós pode alcançar objetivos que talvez não conseguisse sozinho, que talvez não alcançasse se não pudesse seguir o exemplo ou a palavra inspirada desses condutores de multidões. 

Existem pessoas, porém, que exageram, e em lugar de usar esses dotes para liderar ou conduzir, usam-nos para oprimir, controlar e dominar os outros. Passam por cima daquilo que os outros pensam  e sequer permitem que eles se expressem, exigindo obediência cega. 

Quem não conhece o pai severo, o guardião da família, que impõe a sua vontade sem levar em consideração a opinião ou os sentimentos da esposa e dos filhos? Como sempre está com a razão, como sempre sabe o que é melhor para os outros, não tem interesse em escutar o que os outros têm a dizer e recusa-se a discutir. Suas ordens têm que ser seguidas sem o menor questionamento porque ele sempre sabe o que é melhor para a família. 

Todos têm que dançar de acordo com a sua música e ele diz frequentemente frases do tipo “Confie em mim”, “Não pense: faça exatamente o que eu estou dizendo”, “Negócios são negócios”, “Não admito discussão” e “Assunto encerrado”.

Pessoas assim são verdadeiros tiranos que às vezes podem ser tornar extremamente agressivos porque acreditam que os fins justificam os meios. Essa agressividade pode se expressar em forma de ódio frio e calculado ou de violência física.

Mas existem outras formas pelas quais o autoritarismo e a mania de controle podem se expressar. Muitas vezes, em vez da força e da opressão, ou da ameaça de violência física, usa-se a chantagem emocional como caminho para se conseguir o controle da situação. Assim fazem aqueles que não podem estabelecer o poder por meio da força física. É a mãe que chora e “passa mal” quando os filhos planejam se ausentar, a esposa que chora com medo de ficar em casa sozinha quando o marido quer sair à noite,  a criança pequena que aprende a controlar os pais e outros adultos através de choro, manha, recusa do alimento e outros artifícios.

Existem outras formas ainda mais sutis de controlar os outros. Todas aquelas antigas artimanhas que acontecem na relação amorosa são, mesmo que não pareçam, o exercício de um autoritarismo tanto mais feroz quanto mais disfarçado.

As pessoas controladoras quando adoecem dão ordens a médicos e enfermeiros e infernizam a rotina do hospital, querendo interferir do todas as maneiras no tratamento médico. Para essas pessoas, a doença é um acontecimento de certa forma benéfico porque o confronta com algo que ele sabe que não pode controlar: a Morte. Muitas vezes essa consciência é tão esclarecedora que depois de uma doença grave o indivíduo alcança um estágio mais harmonioso de vida, já que se aproximou demais de uma situação maior do que ele.

O autoritarismo é gerador de estresse porque é extremamente desgastante estar no controle o tempo todo. Essas pessoas frequentemente apresentam hipertensão, dores musculares, artrite, dores de cabeça e são sérios candidatos ao infarto do miocárdio.
 

AUTO-ESTIMA BAIXA

Para cada tirano, seja ele pai, patrão, mãe, criança mimada ou marido ciumento existe uma ou mais vítimas. Opressor/oprimido formam um par energético muitas vezes difícil de separar. A funcionária submissa, a mãe insegura, o marido fraco, são parceiros fiéis do patrão dominador, da criança mimada ou da esposa ciumenta.

Essas pessoas têm uma individualidade pouco desenvolvida e por isso não conseguem impor sua opinião frente aos outros. Vivem geralmente sob o jugo ou a dominação de uma personalidade mais forte, que as explora e oprime. A personagem de Cinderela, burro de carga da madrastra e das filhas, é o exemplo típico.

Geralmente, essas pessoas vivem cansadas e esgotadas por excesso de trabalho porque não conseguem dizer não e aceitam todas as tarefas para as quais são solicitadas. Falam em voz tímida, hesitante, e têm uma vitalidade muito baixa. Evitam disputas e geralmente adoecem repentinamente, como se fosse a única forma de fugir ao acúmulo de tarefas. As situações estressantes se expressam fisicamente como gastrite, úlcera, alergias respiratórias, nódulos mamários e pólipos uterinos nas mulheres. Frases como “Ele realmente consegue de mim tudo o que quer”,  ou “Não consigo dizer não”, ou ainda “Não consigo negar isso a ela” são típicas desse tipo de pessoa.

(........)


Quero comprar!
Saiba quem é a autora clicando aqui.
 VOLTAR